A filha perdida. Sem pedir licença para viver

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“Às vezes, precisamos fugir para não morrer.” (Elena Ferrante, no livro a Filha Perdida)

Foto divulgação

Por Rosangela Dantas

Discutir questões de gênero nas produções artísticas sempre foi um caminho pertinente aos incômodos da sociedade, fosse com o intuito de denunciar, registrar ou sensibilizar discursivamente os sentidos para esse tema. Dessa forma, não chega ser uma novidade esse assunto no cinema. O que faz do filme “A Filha Perdida”, de Maggie Gyllenhaal, uma obra interessante é sua abordagem, bebendo o máximo possível na atmosfera do livro de Elena Ferrante.

A atriz Olivia Colman empresta seu corpo e sua alma para nos entregar uma personagem cheia de cicatrizes existenciais produzidas pela trajetória de uma mulher. Leda carrega em si uma não-obrigatoriedade da perfeição, rótulo principal pregado nas mulheres a reboque de seus papeis sociais. Talvez isso seja o elemento perturbador explorado pela história de A filha perdida.

Somos acometidos por muitos estranhamentos, assistindo ao filme. E é na condição de investigador que acompanhamos a jornada de Leda, uma mulher de 48 anos em férias, sozinha, cercada por suas questões. Seu corpo em relação ao tempo, ao gênero e, de forma visceral, à maternidade. Memórias potencializadas por outras mulheres que atravessam seu descanso no paraíso.

O lugar desconfortável fica com o espectador, para quem é apresentado uma Leda que se permite não corresponder à velha expectativa do mundo. Noção que nos é dada aos poucos, enquanto a personagem apenas vive, sem pedir licença, sem levantar bandeiras, apesar de flertar com a dor e a culpa, contrariando nossa vã crença nesse ideal definido e exato do ser mãe.

A personagem desconstrói esse projeto de vida para quem engravida e nos incomoda, por mais modernos que acreditamos ser. Sobretudo na ousadia de Leda declarar que para ela, a maternidade é algo “desnatural”. Salvo algumas questões de tradução com relação a esta palavra é possível encontrar muito sentido ao associarmos a imagem da “natureza maternal da mulher” que nos é impelido.

Desvendar esse paraíso da maternidade não é o objetivo de Leda-Maggie-Elena, mas problematizar o seu padecimento sim.

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