AMAZÔNIA – SOCIEDADE ANÔNIMA

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“… Não mexe comigo que eu não ando só

Eu não ando só, que eu não ando só

Mexe não…”

Muito pouco sabemos ainda sobre a Amazônia, esse lugar objeto de tanta cobiça. Mesmo que apontemos nossas câmeras para sua exuberância, dificilmente conseguimos dinamizar sua beleza, sua magia, seus mistérios e mensurar, visualmente, toda sua biodiversidade. O filme Amazônia Sociedade Anônima, de Estevão Ciavatta, inicia sua projeção com estatísticas lamentáveis escritas em uma tela preta, como se numa espécie de introdução ao caos. Dadas as devidas informações, somos embalados pela voz de Maria Bethânia cantando sua ameaça aos desavisados de plantão: “Não mexe comigo…”.

É de dentro da floresta que ouvimos em off a voz de alguém dizer awaidip repetidas vezes. Esta palavra quer dizer “Floresta” em Mundurucu. A fotografia não resiste às belezas da floresta e embarca em uma sequência de imagens bichos e plantas, esbarrando no clichê muito típico em documentários desse tipo. Um julgamento racional que dura alguns minutos, pois logo já estamos totalmente tomados pelas águas do rio, pelas cachoeiras, pela luz e sombra por entre imensas árvores, por lagartas quase perfeitas em suas cores e languidez e pelos macacos e onças desconfiados. Tudo isso com uma trilha sonora que nos leva de vez para dentro daquele lugar.

Coletivo audiovisual Munduruku

Uma produção que traz em sua construção uma bonita reunião da Pindorama Filmes, com o Canal Brasil e o Coletivo Audiovisual Munduruku. Assim como no decorrer do filme nos damos conta de que a voz dos indígenas não fica por aí, toda a narrativa do documentário é atravessada pela fala dos principais personagens dessa questão. O que não quer dizer que não escutaremos barbaridades travestidas de verdades nos discursos de grileiros, ladrões e oportunistas.

O filme de Ciavatta alimenta nossa esperança na medida em que permite que uma certa espontaneidade flua nas sequências de trabalhos de autodemarcação feitos pelos indígenas – um momento de uma realidade dura, tensa, porém cheio de leveza, sorrisos e beleza, nas conversas, nas trocas e na existência simples. Nesse sentido de esperança já dizia Paulo Freire: “Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico”.

O filme cativa ao traduzir em imagens a necessidade de cuidar da floresta e demonstrar que a prerrogativa desse cuidar é essencialmente dos indígenas. Sem grandes pretensões, apenas se propondo a dizer que tudo vai mal, mas a luta continua.

“Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos.” – Ministro do Meio ambiente – Ricardo Salles

Amazônia Sociedade Anônima se torna necessário, como todo e qualquer registro que venha engrossar o coro de que algo muito sério está acontecendo com a floresta e que devemos ficar atentos e não desanimar. Um documentário que nos ensina muito sobre esperança e luta. Para ratificar trago o querido Paulo Freire outra vez.    “Movo-me na esperança enquanto luto e se luto com esperança, espero”.

Disponível na Globoplay

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