Retrato de uma jovem em chamas

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Como retratar uma paixão, capturar a atração entre duas pessoas? O filme de Céline Sciamma pinta na tela uma história apoiada nas sutilezas e apresenta o silêncio necessário para não conflitar com os planos cheios de sentidos e sinais, fugindo de uma possível redundância.

Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel), com interpretações contidas, alimentam a ideia de retratadas. As pausas e o gestual são quadros pintados/dirigidos cuidadosamente por Sciamma. Uma narrativa que se sustenta nas possibilidades de se viver uma vida nas entrelinhas da vida.

Quanto custa ser mulher? Quanto custa ser mulher no século XVIII? O filme, Retrato de uma jovem em chamas, é afetado por essa condição. A liberdade, o direito de amar, de sonhar, de ter prazer, de ir e vir, de pintar, dirigir – questões que ainda hoje são enfrentadas pelas mulheres mundo a fora – conduzem a narrativa num tempo em que a falta de autonomia feminina seria regra. Tudo isso se concretiza num exercício de metalinguagem amoroso.

O filme de Céline demonstra como é possível abordar essa temática, inclusive discutindo a questão do aborto. A diretora filma um romance complexo e cheio de beleza e consegue escapar de uma possível panfletagem, que seria até compreensível, simplesmente porque a opressão é inerente à história de qualquer mulher, até mesmo aquelas que, assim como Héloise, romperam com determinadas amarras.

Até quando se resignam, as personagens eternizam suas trajetórias e as mantêm inscritas através do tempo. As metáforas construídas com luz e sombras e os signos provocam em nós, espectadores, um saciar. É como se a história se realizasse neste plano, para além do que se conclui na história convencional. Uma bela experiência cheia de razão e sensibilidade.