A vida invisível

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“(…) Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar (…)
(…) Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão …”
(C. Buarque)

A beleza às vezes vem travestida de tristeza. Não há outra palavra que resuma o filme A Vida Invisível de Karim Aïnouz, senão belo. Ao narrar uma dupla trajetória feminina, o diretor deixa bem claro que, qualquer que fosse a escolha das personagens Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stocker), a condição de serem duas mulheres as levaria a processos semelhantes – de ausência de direitos.
O filme nos remete a um tempo em que a invisibilidade feminina era norma de ser e estar no mundo para as mulheres. Tanto a ousadia de uma, quanto a resignação de outra não as livra desse lugar de coadjuvantes na sociedade, diria até de anonimato ou mesmo de inexistência. Mesmo cheias de planos e força, Guida e Eurídice foram aniquiladas e minadas naquilo que é mais intrínseco ao ser humano: sua liberdade, juntamente com a capacidade de sonhar e de desejar ser no mundo.
A história de Karim se alimenta de ausências e constrói um percurso narrativo ditado pela busca esperançosa e angustiante contada nas cartas de Guida. Ao se buscarem, as irmãs existem em segredo, vislumbram possibilidades de se reencontrarem e, para isso, vivem, para chegar nesse futuro. Invisível também são as ações manipuladoras dessa história. Essa metalinguagem só é possível no filme por se tratar de uma situação óbvia – os homens manipulam os destinos dessas duas, primeiro o pai, depois o marido de Eurídice.
Enquanto não se reencontram, as mulheres barganham seus corpos, anseios, suas vidinhas de mulheres. No filme, a representação masculina é muito bem resolvida no que os personagens trazem entre o patético e o amoroso, entre o autoritário e o bom pai de família, entre o senhor e o marido. As sutilezas da vida em família, formando quadros felizes que são atrapalhados pelo querer das mulheres.
As atrizes emprestam ao filme, além dos corpos, seus âmagos, e, assim a direção consegue o melhor da narrativa. Enquadramentos cheios de beleza, mostrando episódios tão tristes da vida dessas duas. O feio que está implícito o tempo todo na opressão, faz com que sejamos tocadas por essa ausência, por essa invisibilidade destruidora. Um lugar narrativo que muitas pessoas, no escuro do cinema, reconhecem em suas mães, avós e gerações de mulheres que foram e são ainda tolhidas violentamente.
A submissão envenena a mãe das personagens. O abismo entre Guida e Eurídice só é mais aprofundado pelo tempo, ao passo que, geograficamente, elas permanecem ali, próximas. A imensidão do amor que as une faz com que elas sobrevivam por suas ausências.

Rosangela Dantas/Blog Leia Cinema

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